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2008-05-12

Internalização, escolhas econômicas e meio-ambiente

No nível conceitual, uma das soluções para o problema do aquecimento global é o que se tem chamando de "internalização de custos". O mercado, da maneira que funciona atualmente, leva em consideração somente uma parcela dos custos econômicos da atividades. Uma usina poluidora não inclui, em seus balancetes, os custos médicos do tratamento de milhares de pessoas que poderão sofrer, por exemplo, problemas respiratórios. Os pacientes correm para o sistema público de saúde, financiado pelo governo, que acaba, inconscientemente, subsidiando a atividade poluidora. A mesma lógica pode ser estendida aos danos dos "eventos extremos" associados ao aquecimento global, à poluição das água, à redução da biodiversidade e daí por diante. Com isso, atividades economicamente que, sem levar em consideração suas conseqüências ambientais, eram lucrativas, talvez o deixem de ser. 

2008-05-06

Europa e Carvão

http://www.nytimes.com/2008/04/23/world/europe/23coal.html?ref=environment

http://www.mediafire.com/?lmdblgbzlnn

Uma matéria recente no New York Times revelou que a Europa (a matéria menciona Itália, Alemanha e República Checa) está voltando a construir termelétricas a carvão. Estão planejadas pelo menos 50 na Europa. Com a alta dos preços do petróleo e do gás natural – estimulados pela ausência de cartelização no mercado de carvão, do seu baixo preço e dos 200 anos de reservas do combustível ainda disponíveis –, países europeus estão voltando ao carvão.

Pensando somente no mercado e no curto prazo, a decisão européia não poderia estar mais correta, afinal o custo dos combustíveis atualmente utilizados subiu, segundo o NYT, 151% desde 1996 (e sabemos que, em Euros, o preço do barril do petróleo subiu quase 30% desde 2006). No Brasil, Eike Batista está planejando fazer termelétricas a carvão no Ceará.

Esse retorno é prova de que somente uma solução de mercado poderá resolver o problema do Aquecimento Global. O carvão tem que deixar de ser a matéria-prima mais barata para geração de eletricidade. E, pelo mercado, isso não vai acontecer tão cedo. Isso provavelmente acontecerá por meio de ação governamental.

Uma possibilidade é incluir-se – na produção e/ou no consumo (dependendo do caso) – um valor referente ao custo da mitigação da emissão, o que, essencialmente, é o mecanismo de cap-and-trade (créditos de carbono) de Quioto. Emitiu, mitigou.

O problema é que a mitigação tem um limite. É impossível pensar num cenário em que emitimos tudo quanto quisermos e seqüestramos a totalidade do carbono emitido. Atualmente, a capacidade de absorção de carbono pelas florestas e oceanos é algumas vezes menor do que as emissões da humanidade, e é por isso que o carbono se acumula na atmosfera. O mecanismo capitalista de transformar o problema em uma possibilidade de lucro (através da venda dos créditos de carbono), é uma boa idéia, mas, por si só, não vai resolver o problema. Seqüestrar todo o excesso de carbono que emitimos para que deixe de se acumular na atmosfera é quase intangível e, portanto, a não-emissão é essencial.

Um imposto sobre o carbono emitido que tornasse alternativas limpas mais economicamente viáveis seria uma solução, mas esbarra em interesses, como tudo na vida.

Obama & Hillary

Outro dia a Miriam Leitão colocou um dos videozinhos dela no blog dela no globo dizendo que, se os democratas perderem as eleições esse ano, deveriam escrever um livro a quatro mãos: Como Perder uma Eleição Ganha. De fato, o que está acontecendo agora é uma total falta de visão de longo prazo e de missão. Estão explorando o ponto fraco uns dos outros e reduzindo suas chances de sucesso na corrida contra John McCain no fim do ano. Mas me parece que a atitude de Obama está mais correta do que a de Hillary.

Hillary começou continua explorando as pontos fracos de Obama: suas raízes estrangeiras – e sua conseqüente possível falta de patriotismo –; suas relações com o mundo islâmico – por ter nascido no Kênia; a sua teórica falta de experiência – representadas pelo “It’s 3am ad”; e as suas relações com o polêmico reverendo Jeremiah Wright.

Ao que parece, Obama só faz refutar as críticas, sem, no entanto, dirigir novas a Hillary. Essa semana saiu uma charge na Economist que revela bem o atual estado de coisas. McCain montado numa tartaruga, Obama e Hillary montado em cavalos de corrida, que deitados no chão, esperam a briga entre os dois terminar enquanto se distraem com o jogo da velha.



Não há uma relação óbvia e automática entre o governo Bush e um possível futuro governo de John McCain. McCain tem inclusive buscado se distanciar de Bush, apesar do latente apoio do presidente pelo candidato republicano; e existe a impressão generalizada de que ele é um republicano “diferente”.

A estratégia de Obama (sumarizada pelo mote da campanha: “change we can believe in”) é o mote que fez vencer tudo quanto é eleição nos EUA: mudança do atual estado de coisas – para melhor, claro. Obama parece ser o que mais capitalizou nessa idéia. Contudo, se McCain conseguir se distanciar de Bush – o que vai ser difícil com os seus comentários de que ficaria 100 anos no Iraque se fosse necessário –, conseguindo manter a imagem jovem e pouco representativa do maverick que estava pronto para voltar para casa na Guerra e se ofereceu para voar novamente porque a aeronáutica americana simplesmente precisava de pilotos, é possível que McCain venha a vencer.

Entretanto, nós sempre devemos pensar no longo prazo e no aspecto estrutural da campanha e isso me parecer ser o seguinte: os americanos estão insatisfeitos com os republicanos por conta do insucesso da guerra do Iraque e da maior crise econômica que os Estados Unidos vem sofrendo desde muito tempo.

Para o Brasil, em termos comerciais, é mais interessante que um republicano vença, pois os democratas tendem a acusar “the shipment of American jobs overseas” (nas palavras do próprio Barack Obama) ou “the loss of American jobs due to the purchase of imported goods”. Vencendo os republicanos, é possível que o mercado americano se abra mais, por exemplo, ao etanol brasileiro (que permanece sobretaxado em subsídio à incrivelmente ineficiente e (aí, sim) criminosa produção americana de etanol através do milho) e a outros produtos brasileiros. Os Estados Unidos não são o parceiro comercial que eram, mas ainda são muito importantes.

Contudo, vencendo os democratas, os EUA estarão muito mais abertos a uma agenda mais restritiva de emissões de gases do efeitos estufa pós-Quioto. Contudo, se Brasil e outros países em desenvolvimento (let’s call it “China”) (que não tem metas determinadas por Quioto) mostrarem receptividade em estabelecerem, no âmbito interno ou externamente, suas próprias metas, vai ficar insustentável, seja para democratas ou republicanos, não cortar emissões.

2008-05-05

Vai dar m...

A China está produzindo e consumindo mais carros do que nunca. Em relação ao ano passado, o consumo de automóveis subiu 20% e, segundo matéria da The Economist dessa semana, não há sinais de que esse impulso está diminuindo. Atualmente, somente 4% da população Chinesa tem carros e, apesar da China estar se configurando em um país dividido entre suas faces rica e pobre, urbana e rural – o que desautoriza a percepção catastrófica de que todos os 1,3 bilhão de Chineses terão como, no curto prazo, comprar automóveis –, ainda há um grande mercado potencial para o automóvel na China. Recentemente, a relação preço de automóvel/salário na China chegou àquele ponto em que analistas entendem como engatilhador do consumo: o preço do carro passou a ser mais ou menos igual ao de um ano de salário. Com crédito barato, que o país tem, fica fácil comprar. O carro também é um símbolo de status na China – o que incentiva ainda mais seu consumo.

Creio que há uns dois anos atrás saiu uma matéria no New York Times falando do aumento do consumo de aparelhos de ar condicionado na Índia, favorecido pelo desenvolvimento. A matéria girava em torno dos gases refrigerantes utilizados, danosos à camada de ozônio. Num momento de cortes de emissões de carbono, vai ficar complicado com a China colocando 6,2 milhões de carros individuais nas ruas por ano, como aconteceu ano passado. O consumo per capita de energia da China ainda é muito baixo, mas o país é o segundo mais produtor/consumidor. O país, com uma população quatro vezes maior do que a dos Estados Unidos, consome por volta de metade da energia dos EUA. Muito do potencial energético chinês é jogado fora em termelétricas antigas e desperdiçadoras. E o pior, essas termelétricas são a carvão que, além de emitirem o dobro de dióxido de carbono que as termelétricas a gás, ainda emitem dióxido de enxofre, que contamina lagos, mata os peixes, destrói plantações, gera a famosa “chuva ácida”, fora as conseqüências para a saúde pública que é melhor nem começar a listar. Oito das dez cidades mais poluídas do mundo estão na China e essa nova frota não virá desanuviar os ares.

Fora o efeito ambiental, é certo que esse novo contingente de automóveis virá pressionar o preço do barril do petróleo. (Aliás, concordo com quem diz que é um absurdo o governo baixar o imposto sobre a gasolina. A produção petrolífera mundial está mostra sinais de esgotamento e o governo incentiva o consumo. Maravilha. Tudo errado. O transporte individual e o uso de combustíveis fósseis devem ser desincentivados; e uma ótima ferramenta continua sendo o mercado.)

2008-05-04

Plástico Verde

Saiu no Canal Energia e também no "O Eco" uma matéria sobre o desenvolvimento do plástico verde. Aparentemente, a partir da cana de açúcar, pode-se desenvolver o eteno, e, a partir do eteno, o polietileno. A vantagem da operação é o fato de ser carbono-negativa, ou seja, de, em seu processo de produção, emitir menos carbono do que seqüestra. Há o problema da não-biodegradabilidade do plástico, mas ele pode ser reciclado, o que alivia o problema dos lixões e aterros e gera oportunidades de renda. Mas e de onde virá a cana?

Hoje, o Brasil possui 220 milhões de hectares dedicados à pecuária e, aparentemente, 50% dessa área já é degradada e poderia ser utilizada para a cultura da cana. A ação da operação Arco de Fogo da policia federal é pontual e foca nas madeireiras. Resta agir sobre a pecuária e sobre a cultura de grãos, redirecionando-as para as áreas já degradadas.

Pelo o que parece, a pecuária brasileira é muito intensiva em área e, onde hoje pasta um boi, poderia pastar um boi e meio. Por que então expandir a extensão dos pastos? Está faltando informação e está faltando os ruralistas e os pecuaristas entrarem na discussão com propostas viabilizadoras da preservação da Amazônia e dos outros biomas brasileiros.