2008-05-05

Localização

http://www.nytimes.com/2008/04/27/technology/27proto.html?ref=environment

Ontem li uma interessante matéria no NYT comentando o trabalho de um “inventor” americano, Floyd S. Butterfield, que está desenvolvendo uma espécie de um dispositivo (que supostamente será mais ou menos do tamanho de uma máquina de lavar roupa) para produção de etanol usando açúcar como matéria prima.

A produção dos consumíveis no nível local é algo que se fala já há muito tempo nos Estados Unidos. Da última vez que estive lá, tive a oportunidade de conhecer um supermercado de rua que nada mais era do que um veículo de venda para uma cooperativa de pequenos agricultores locais (Thanks Robi and Will for the wonderful dinner!). “Organic and locally-grown”, são as duas expressões aplicadas à comida ambientalmente consciente nos EUA. Aqui, os orgânicos já estão muito difundidos, mas não fazemos a mínima idéia de onde vêm o que comemos. E deveríamos, afinal, trazer morangos, mirtilos, kiwi e outros alimentos de longe não só custa dinheiro como polui.

Taí uma idéia interessante para o desenvolvimento de políticas – e imagino que isso possa ser regulado no nível municipal ou estadual: obrigar supermercados a, junto à etiqueta de preço, indicar de onde no mundo veio o produto e por que meio de transporte. Isso não seria muito custoso aos estabelecimentos, ajudaria a suscitar maior consciência quanto ao problema do transporte de alimentos e estimularia a produção local. Para estimular a produção local de alimentos, também poderia instituir um imposto relativo à distância: quanto mais quilômetros percorridos, mais imposto. Isso apresenta um problema e deve ser analisado caso a caso, pois muito se ganha em termos de redução de custo com a escala de produção. Mas imagino que, quanto a certos itens (legumes, verduras, frutos e carnes frescos, por exemplo), isso possa funcionar.

O mesmo deveria ser estimulado também em relação a energia, visto o enorme custo ambiental do desmatamento e do desperdício das linhas de transmissão. Cada condomínio poderia ter geradores eólicos rodando em paralelo com o sistema: o que o vento não produzisse seria complementado pelo sistema. Já há algum tempo há um projeto da Sharp que utiliza painéis solares (só que o preço da sílica, matéria-prima utilizada nos painéis, subiu muito de preço e dificultaria a massificação da energia solar fotovoltaica) que, quando produzem mais do que a unidade utiliza, “vende” o excesso para a distribuidora (fazendo o relógio rodar para trás). Por que não?

Mas voltando à máquina de etanol, o inventor diz que queimar um galão de etanol produzido no sistema dele produz um oitavo das emissões de dióxido de carbono geradas pelo equivalente em gasolina. O problema é a matéria-prima utilizada, o açúcar. Segundo a matéria do NYT, o sistema precisa de 10 a 14 libras (4,5 a 6,4 quilos) de açúcar para fazer um galão de etanol (3,78 litros). Segundo a matéria, nos EUA, a libra (450 gramas) de açúcar custa por volta de 20 centavos de dólar, o que faria o custo do litro sair por R$1,25 (na pior das hipóteses, ou seja, usando-se 6,4 litros). Contudo, a matéria diz que é possível comprar açúcar não comestível do México por até 2,5 centavos de dólar por libra (ou seja, por volta de 9,35 centavos de real por quilo), o que baixaria o custo do litro para R$0,15.

O problema é que não se está levando em conta as emissões geradas pelo transporte desse açúcar do México até os centros consumidores, o encarecimento tanto do açúcar comestível quanto do não comestível com a difusão do equipamento e o custo financeiro e ambiental de outros insumos como eletricidade e água (que, diz a matéria, sai do equipamento potável). É uma boa iniciativa, mas o ideal seria se fosse utilizada qualquer matéria orgânica (lixo doméstico, restos de plantas e etc).

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